A CAPOEIRA ESCRAVA, e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808 – 1850)

  1. história 2. cultura 3. escravidão

Carlos Eugenio Libano Soares – editora “UNICAMP” – São Paulo, 2001

Carlos Eugênio Libano Soares já escreveu um verdadeiro clássico sobre a capoeira carioca na segunda metade do século XIX, o premiado A negregada instituição: os co os capoeiras na corte imperial, 1850-1890 (Access, 1999). Agora, ele recua à primeira metade desse século para aprofundar seu estudo sobre o assunto e acrescentar outras manifestações de rebeldia escrava, também no Rio. O autor é acima de tudo um excepcional pesquisador. Neste livro, ele o demonstra sobejamente, fazendo desfilar diante do leitor documentos inéditos e surpreendentes que descobriu nos diversos arquivos em que pesquisou, nem sempre sob condições ideais de trabalho. Mas não mantém uma relação passiva diante das fontes. Ele as interroga com estilo de detetive bem treinado e criativo, como deve ser o bom historiador. Também não interroga o passado friamente. Há simpatia e, em muitas passagens, paixão no que escreve. O resultado é uma história envolvente, feita de muitas pequenas e significativas histórias vividas na dor por escravos que, no entanto, não desistiram de afirmar, através de muitos meios, sua vontade e, assim, sua humanidade.

Nascido em 1962, Carlos Eugênio Libano Soares estudou em Ouro Preto e concluiu o curso de graduação pela UFRJ em 1988. É mestre (1993) e doutor (1998) pela UNICAMP. Recebeu duas vezes a dotação de pesquisa do Centro de Estudos Afro- Asiáticos da Universidade Cândido Mendes, em 1994 e 1998. Pesquisou em Portugal e Angola para sua tese de doutorado. Sua dissertação de mestrado (A negregada instituição: os capoeiras na Corte imperial, 1850-1890) foi publicada pelo Arquivo Municipal do Rio de Janeiro, por ocasião do Prêmio Biblioteca Carioca (1994), e depois pela Editora Access (1998). O autor foi também premiado pelo Arquivo Estadual do Rio de Janeiro por um trabalho sobre moradia coletiva de negros no Rio de Janeiro do século XIX (Zungu: rumor de muitas vozes), no concurso Memória Fluminense (1998). Foi professor visitante da Universidade Federal do Pará. Tem vários artigos publicados em revistas e jornais. Atualmente, chefia o Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra, onde dirige o projeto de formação do Centro de Memória da História do Trabalho do Vale do Paraiba. É bolsista do CNPq, com um projeto sobre as africanas da Costa da Mina no Rio de Janeiro do século XIX.

Flagelo da ordem policial, terror das “boas familias” da capital Império, a capoeira, no Rio de Janeiro da primeira metade século XIX, representou um desafio permanente para a ordem escravista wher Entretanto, longe de uma simples forma de “resistència”, ela teve um peso significativo nos conflitos dentro da própria comunidade escravia, expressos na divisão da cidade colonial em maltas que se diglaðiavam pelo controle de áreas determinadas em ferozes batalhas noturnas, que forjaram um verdadeiто poder paralelo, ameaçador da ordem social dominante. Formada em sua maioria por jovens escravos nascidos na Africa Centro-Ocidental, a capoeira, a partir de 1821, entrou em uma fase de extrema politização, processo que culminou com as rebeliões de 1828 e 1831. Na vaga repressiva que se seguiu, o Arsenal de Marinha teve papel saliente como pólo central de prisão e castigo. A chegada ao Rio dos minas-majos rindas Bahia redundou em sensiveis mudanças politicas e culturais namula que era a mais importante tradição rebelde dos escravos urbanos do Rio de Janeiro imperial. Nos anos 1840 os capoeiras, tal como o conjunto dos cativos e libertos da cidade, estariam em busca de novos aliados, mesmo dentro dos estreitas limites dos grupos dominantes, e este complexo catalizou o nascimento do mito do imperador Pedro II como “protetor dos escravos”. Esta fascinante saga da capoeira escrava deitou profundas raizes na cultura popular na cidade do Rio e imprimiu marcas indelérveis na juossa identidade como nação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *