Depois de um longo silêncio, o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder escreveu um artigo exclusivo para o Berliner Zeitung no dia 23 de Janeiro de 2026. Aos 81 anos, o político social democrata foi uma das vozes silenciadas na campanha para impor o fomento à guerra na Ucrânia, como pauta principal do aparato político-estatal do país.
Acusado de ser um defensor de Wladimir Putin („Putin Versteher“), Schröder perdeu não só a voz e o microfone para participar do debate. Perdeu cargos, contratos e até mesmo seu escritório no Parlamento (Reichtag), prerrogativa vitalícia de todos os ex-primeiros ministros.
Após tentar mediar diretamente o conflito, fazendo uma visita a Moscou, Schröder chegou a ser ameaçado de um processo por alta traição. Ao sentir o baque, retirou-se da cena midiática. Alegou ter sofrido um burnout em meio à crise provocada pela guerra. Continuou a agir nos bastidores, enquanto respondia às comissões de inquérito onde seu nome fora arrolado. Na entrevista agora, o ex-primeiro ministro rompe um silêncio de quase dois anos. Desde 2024 não tocava no assunto na mídia.
Apesar de toda a pressão, de lá pra cá, sua posição continua praticamente a mesma. Ao Berliner Zeitung, uma das poucas mídias dissidentes do discurso mainstream na Alemanha, Gerhard Schröder descreveu o ataque da Rússia à Ucrânia como uma violação do direito internacional, mas exigiu sabiamente que a dinâmica de escalada seja interrompida. „É necessária a paz entre a Alemanha e a Rússia“, defendeu o social democrata.
Em meio a todo o imbróglio causado pela política esquizofrênica dos Estados Unidos de Trump, Schröder ganha força novamente com uma abordagem diplomática e racional. Ao diário berlinense ele argumentou contra a demonização da Rússia e a favor da retomada das importações de gás natural.

„Hoje fala-se muito de capacidades militares, mas o nosso país e a Europa precisam, acima de tudo, de capacidade para a paz. Por isso, continuo a considerar correto o que promovi durante o meu mandato como chanceler federal: o fornecimento seguro e fiável de energia barata da Rússia, como se provou… Difamar isso é simplesmente absurdo. Pelo contrário: precisamos de formas de cooperação com a Rússia como essa… Também sou contra a demonização da Rússia como inimiga eterna. A Rússia não é um país de bárbaros, mas um país com uma grande cultura e diversas conexões históricas com a Alemanha“, ensinou o ex-chanceler, sem negar seu interesse direto no assunto.
Após deixar a chancelaria, Gerhard Schröder se envolveu como lobbista da Nord-Stream, subsidiária da Gaspron russa, e que é dona dos gasodutos sabotados em setembro de 2022. A idéia do projeto foi gestada durante o seu governo (1998 a 2005) e a construção iniciada no último ano do seu mandato.
Era um salto geopolítico sem precedentes, desde o fim da segunda-guerra. Quatro dutos submarinos de 1.200 quilômetros trariam gás natural da Rússia até a Alemanha pelo mar Báltico. Uma garantia de fornecimento de energia barata e menos poluente até 2050, pelo menos.

Hoje apenas um desses dutos continua inteiro, apesar de fechado por conta do embargo europeu à Rússia. Schröder assumiu a presidência do conselho da Nord Stream 2 em 2023 para tentar salvar a situação. Em seguida transferiu a sede da empresa para a Suiça, e atua desde então para devolver à Alemanha a sanidade política de tempos atrás.
“Em termos de política de paz, sigo a tradição de Willy Brandt e Helmut Schmidt. Defendo um sistema de segurança cooperativo, tal como exigido pelas Nações Unidas. Mas como criar uma comunidade se a Rússia, o maior país do mundo, é excluída? Ou a China, o novo gigante econômico com 1,3 bilhão de habitantes? … O desenvolvimento do mundo e sua dinâmica técnico-econômica estão se deslocando do Ocidente para o Oriente. Isso torna ainda mais importante que a Europa, de Lisboa aos Urais, se entenda como uma unidade”, defendeu o velho político na entrevista.
É uma tarefa ingrata e solitária. Por vezes também perigosa. Pois os ânimos andam radicalizados e para impor o ilógico e indefensável, os políticos da coalizão do governo atual repetem em coro o discurso russofóbico emprestado dos americanos. E isso, apesar de os próprios americanos hoje trabalharem para acabar com a guerra o mais rápido possível.
O atual chanceler, Friedrich Merz (CDU) aliado com os sociais democratas, propõe a solução de um congelamento do front. Sem intenção de um trocadilho de inverno, a idéia é obter um cessar fogo, mas mantendo a animosidade pulsante, o que ajudaria pelo menos a esconder o fiasco de todo o discurso de ódio promovido pela Comissão Européia da colega de partido de Merz, Ursula von der Leyen.
Eles formam a chamada coalizão dos bem-intencionados (Coalition of the willing), contra a qual se levanta o velho ex-chanceler. Interessante notar que hoje na Alemanha, apenas as correntes de oposição mais radicais, tanto à esquerda (BSW) quanto à direita (AfD), estão afinadas com o discurso diplomático de Gerhard Schröder.

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