O historiador Yuval Noah Harari em uma ilustração da Internet (https://www.currentaffairs.org/news/2022/07/the-dangerous-populist-science-of-yuval-noah-harari)

HOMO DEUS – O receituário tecnocrático e supremacista de um best seller

Yuval Noah Harari é um campeão de vendas. Com milhões de livros vendidos em todo o mundo, o israelense trabalha como professor do departamento de história da Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua fama, porém, foi forjada a partir da sua primeira obra de destaque, o livro “Sapiens, uma breve história da humanidade” (2011).

Aos 49 anos, completados agora em Fevereiro, Harari é declaradamente ateu, coisa que para qualquer judeu faz toda a diferença. Quem lê seus livros com atenção percebe inevitavelmente que ele, como bom sionista, gosta mesmo é de brincar de Deus.

Isso fica evidente em “Homo Deus, Uma breve História do amanha” (2016), a sequência de “Sapiens” e onde ele prevê um futuro distópico e inevitável. No texto, entre inúmeras ilações e interpretações distorcidas em áreas fora da sua especialidade, o historiador prega o sacrifício do livre-arbítrio humano no altar dos algorítmos das nuvens digitais, este sim o grande substituto da ideia romântica de um Deus no céu.

Passada uma década desde o lançamento, nota-se que a maioria dos jornais da grande mídia deixou de servir como filtro crítico para textos contendo absurdos. O foco deles parece estar em vender idéias e produtos que corroborem com a narrativa do establishment vigente.  

Divina eficiência

De forma inteligente e municiado por meias verdades, Yuval defende uma “nova ética” para lidar eficientemente com o avanço tecnológico. E no caso, o uso da palavra “eficiência” não é uma mera escolha casual.

Sem considerar que foi justamente a busca pela eficiência que levou os nazistas alemães a desenvolverem as câmaras de gás em seus campos de concentração, ele começa o livro abordando um tema caro para a humanidade: a fome. Seu “erro”, no caso, é de ordem metodológica.

Harari compara épocas distintas – história antiga, Idade Média e a era moderna – sem contextualizar. Aborda assim, as causas e efeitos da fome ao longo do tempo de uma forma homogênea e portanto distorcida. 

“Outros consumiam o sangue que escorre quando vacas e bois sao abatidos, e os restos que os cozinheiros jogam nas ruas. Outros pobres miseráveis comiam urtigas e ervas, ou raízes e grama, as quais ferviam na água”, escreve ele sobre a Inglaterra da idade média. Omite, contudo, que essa descrição se aplica também à dieta dos escravos africanos no Brasil desde o século XVII, hoje tratada como cultura de sobrevivência.

A conclusão dele sobre o problema também é tanto vaga, quanto incorreta. “De modo geral, hoje em dia as pessoas não experimentam mais esse tormento excruciante”, escreve o israelense. Tudo bem que, quando o livro saiu, o mundo ainda não vivia os conflitos de hoje. Mas de uma forma, ou de outra, as “fomes políticas”, a que ele se refere na página 14, é algo que sempre existiu, não sendo assim um fenômeno moderno, como tenta sugerir. 

Mais adiante, o livro aborda a saúde e as pestes. É nesse ponto que o caráter anti-humano e eugenista do escritor começa a se revelar.

Harari é assíduo palestrante dos encontros do Fórum Econômico Mundial promovido por Claus Schwab em Davos na Suíça
Comprometimento corporativo

“Exploradores e colonizadores, sem saberem, trouxeram consigo doenças infecciosas contra as quais os nativos não tinham imunidade. Como resultado, até 90% das populações locais morreram”, escreve na página 17. Mas será que os exploradores eram tão inocentes, que “sem saberem”, dizimaram as populações que encontraram no novo mundo? Ou queriam, desde o início, livrar-se dos povos nativos?

Fora uma quantidade imensa de dados encontrados em posts da Wikipedia, Harari exagera nas simplificações. Faz também comparações sem base, afirmando, por exemplo, que hoje devido ao “aumento da população e os meios de transporte mais eficientes”(p.:20) as pestes ameaçam muito mais o mundo. Além das diferenças entre “Kinshasa e Tóquio”, a experiência com a pandemia da Covid-19 mostrou que outros fatores precisam entrar na conta se quisermos prevenir crises. 

Mostrando quem são seus senhores, Yuval elogia a OMS como a principal responsável pela erradicação da varíola, como se isso fosse um fato inquestionável. Menciona da mesma forma a Sars, a Peste Negra e o Ebola, mas é o que ele diz sobre a Aids que demonstra seu comprometimento com a indústria farmacêutica.

“O que teria acontecido se a Aids tivesse eclodido em 1581, e não em 1981?”, indaga ele na página 21. A questão até faz sentido, mas ignora um consenso recente na ciência:  a maioria das mortes por imunodeficiência nos anos 80 foram causadas por medicamentos experimentais, como o AZT, e não só pelo vírus HIV.

Coleção de falácias

É abundante a coleção de afirmações falsas e falácias de Homo Deus. Vale, por isso,  listar as principais idéias na ordem em que aparecem, e expor assim a lógica da retórica que o autor usa para vender suas teses.

“…na corrida armamentista entre médicos e germes, os médicos estão na frente”…”na corrida contra a medicina, os patógenos, em última análise, dependem da mão cega da sorte”…  “se mesmo assim uma epidemia sai do controle, isso se deve mais à incompetência humana do que à ira divina”, escreve na página 22.

Ocorre que a humanidade ainda não conseguiu erradicar velhos flagelos, como o sarampo e a malária, sem falar em doenças que se tornaram epidêmicas como o câncer. A sensação que se tem é que a medicina entrou num beco sem saída, onde o que dá certo de fato é o sistema lucrativo da indústria farmacêutica. A estagnação da expectativa de vida, segundo demógrafos, sinaliza que a população pode começar a diminuir em breve. 

“E quanto aos perigos inerentes à natureza humana?”, indaga o professor da Universidade de Jerusalém. “A biotecnologia nos capacita a derrotar bactérias e vírus, porém simultaneamente faz com que os próprios seres humanos se tornem uma ameaça sem precedentes. As mesmas ferramentas que capacitam médicos a identificar e curar rapidamente doenças novas, podem também capacitar exércitos e terroristas a arquitetar doenças ainda mais terríveis e patógenos apocalípticos”, diz na página 23.

Propaganda ideológica

Analisar a obra do autor, que vendeu mais de 45 milhões de livros em 65 idiomas, ganha peso justo no momento em que autoridades admitem que o vírus da Covid-19 foi criado no laboratório de pesquisas genéticas de Wuhan, na China. O erro de Harari não está apenas em responsabilizar a “natureza humana” pelos crimes de grandes instituições. Ele escreve absurdos como uma propaganda da ideologia que representa.

Frases como ”…as guerras estão desaparecendo também”, ou “… o açúcar é mais perigoso do que a pólvora” (p.24), aparecem junto a outras de efeito: “Ao reconhecer nossas conquistas no passado, estamos enviando uma mensagem de esperança e responsabilidade, que nos incentiva a mobilizar esforços ainda maiores no futuro”, e  “Conseguimos controlar a fome, as pestes e a guerra graças, enormemente, a um fenomenal crescimento econômico, que nos provê de alimento, medicina, energia e matérias-primas abundantes”(p.29).

Ainda que parte disso seja um fato, o que incomoda é o que Harari tenta esconder para sustentar a idéia central do livro. “Tendo elevado a humanidade acima do nível bestial da luta pela sobrevivência, nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus”, escreve na página 30.

Em certo ponto, o texto parece ficção voltada à autoajuda. “A morte é um crime contra a humanidade, e temos que travar uma guerra total contra ela… Na verdade, para pessoas modernas a morte é um problema técnico que pode e deve ser resolvido”, setencia na página 31 o israelense que não crê em Deus. É a nova tecnocracia virtual, onde os humanos aceitaram ser eternos dentro de um computador.

Megalomania enganosa

Para um cientista qualificado, essa lógica tecnocrática revela a megalomania enganosa dos textos de Yuval Noah Harari. “Células cancerosas se espalham porque uma mutação genética acidental reescreve suas instruções. Germes se instalaram nos meus pulmões porque alguém espirrou no metrô. Nada metafísico. Somente problemas técnicos”, diz na página 32.

Aos leigos, alheios às últimas descobertas da ciência, ele tenta reduzir o mistério da vida a algo simples. Uma ideia, que em princípio pode ser muito sedutora, mas que no final serve apenas para empobrecer o debate sobre os dilemas da humanidade, e dessa forma impor soluções tecnicistas que servem apenas aos donos de patentes industriais. 

Reforçando seu compromisso ideológico, o historiador israelense celebra o “estado científico e a economia capitalista” e afirma que “a maior parte de cientistas e banqueiros não se importa com o que estão trabalhando, contanto que isso lhes ofereça a oportunidade de fazer novas descobertas e obter maiores lucros”(p.:37). Assim, ele abre caminho para uma promoção velada da mercantilização de tudo e todos, até da vida humana. 

Em “Homo Deus”, o autor apresenta preocupações éticas em diversas páginas e capítulos, mas usa argumentos irrelevantes para vender uma realidade que nunca existiu no planeta. Navega por temas como “direito à felicidade” (p. 38), “deuses do planeta Terra” (p.: 51), “paradoxo do conhecimento” (p.: 63), “necessidades ancestrais” (p.: 86), “organismos são algoritmos” (p.: 90), “sexo e violência” (p.: 144), “a revolução humanista”(p.: 227), “o oceano da consciência”(p.: 354), “a religião dos dados” (p.: 370)  e defende que o Estado, o mercado e a ciência trabalhem apenas para incrementar e melhorar a situação humana diante desses assuntos. 

Guru da psicopatia     

Harari defende a “produtividade” e a “eficiência” como medidas supremas do desenvolvimento humano. Surge, então, uma questão fundamental: estamos hoje, na modernidade, mais felizes e realizados do que nossos ancestrais, que viveram em tempos mais precários?

Ele admite que não, explicando a felicidade por dois pilares: um psicológico e outro biológico (P.43). Em seguida, afirma que “tanto nossas expectativas, como nossa felicidade são determinadas mais pela bioquímica do que pela situação econômica, social ou política… O que faz as pessoas infelizes são as sensações desagradáveis verificadas no próprio corpo” (p.44).

Apresenta com isso sua candidatura a guru farsante do século XXI, pois ignora que humanos são seres empáticos por natureza. Na visão tecnocrática dele,  isso se resolve com a prescrição de algumas drogas legais. “Para elevar os níveis globais de felicidade, precisamos manipular a bioquímica humana”, escreve na página 47, e sem hesitar receita remédios psiquiátricos até para tratar “melancolias ocasionais”.

A máscara da psicopatia dele cai ainda mais na sugestão para melhorar o serviço militar. “A diferença está na bioquímica dos soldados. Se encontrarmos um meio de controlá-la, de um só golpe produziremos soldados mais felizes e exércitos mais eficazes” (p.: 48). Faz lembrar no caso da “Pervitin”, a meta-anfetamina usada pelos soldados nazistas nas trincheiras da segunda guerra mundial.

Reengenharia humana

Mesmo reconhecendo o problema do uso crescente e indiscriminado de drogas, o professor da universidade Hebraica trata isso como fato consumado. Sugere veladamente: se não podemos vencer o inimigo, melhor unir-se a ele. Assim ele defende “a alteração dos padrões fundamentais da vida” (p.: 49), e “a reengenharia do Homo sapiens” (p.: 51).  

Na metade do livro, o leitor pensa que Yuval Noah Harari não é só PhD em história militar, mas detém também a mesma graduação em Filosofia, Engenharia, Economia, Política, Biologia, Genética, Psicologia e claro Medicina.

Mas ao contrário do que o próprio autor promete, livros assim não trazem esperança. Eles apenas ampliam e perpetuam a enganação que mantém a humanidade estagnada.

Harari propõe uma bioengenharia para reescrever o código genético do “velho corpo do Sapiens”, ignorando os riscos de autodestruição, amplamente alertados na literatura. Na visão dele, num futuro dominado por ciborgues, o corpo humano vira algo descartável, pois como Deus, que foi descartado, assim também será a sua criação. 

Para o israelense, até os sonhos são “um produto da química orgânica” (p.:53). Fala da nova “agenda humana” que consiste no projeto de “alcançar a divindade” (p.: 55), como se isso já não existisse há milhares de anos. É nesse momento que, jogando informações fora do contexto, ele mostra seu lado mais tecnocrata e elitista. 

Tráfico imortal

Ná página 59, o autor confessa a ideologia que defende. “A economia moderna precisa de um crescimento constante e por tempo indefinido para sobreviver. Se o crescimento parar, a economia não vai se ajustar num patamar mais baixo, num equilíbrio aconchegante: ela se despedaçará. É por isso que o capitalismo nos incentiva a buscar a imortalidade, a felicidade e a divindade”. 

Analisando essa ideia, é como dizer que as necessidades genuinamente humanas dependem da acumulação de capital, sobretudo na mão de grandes investidores. Não por acaso, Yuval Noah Harari palestra com frequência no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.  

Ele defende a engenharia genética para vencer enfermidades como o câncer, e prevê um futuro onde um “catálogo genético” (p.: 62) nos livraria de todas as doenças rumo ao ser humano imortal. Nesse cenário, até o comércio de órgãos deixaria de ser uma “atividade marginal” (p.: 63). Na sua visão, projetar bebês é tão exequível, quanto assassinar pessoas para colher seus órgãos.

Essa agenda tecnicista, na visão dele, é inevitável, e por isso essencial para o futuro da humanidade. Tal “previsão histórica” é focada no que o gênero humano deve tentar alcançar (p.:64), caso deseje prevalecer. E para isso devemos nos apressar, afinal na medida que a velocidade da transformação se acelera, devemos agir para poder controlá-la e conduzi-la. Simples, não é?

Fórmula simplista

“Esse é o paradoxo do conhecimento histórico. Conhecimento que não muda o comportamento é inútil. Mas aquele que muda o comportamento perde rapidamente relevância. Quanto mais dados tivermos e quão melhor compreendermos a história, mais rapidamente a história alterará seu curso, e mais rapidamente nosso conhecimento se tornará obsoleto”, diz na página 66.

Para Harari, a existência é resultado de uma “cadeia acidental de eventos” que criou o mundo. É uma tese típica de ateus para justificar uma ideologia conveniente a si mesmo. Ele acerta ao apontar a raiz de alguns dilemas. Diz, por exemplo, que “em vez de temer asteroides, deveríamos temer a nós mesmos” (p.: 81). Mas na medida em que seu texto avança, fica claro que ele apenas usa essas questões para levantar sua própria “bola”.

A intenção do historiador fica nítida quando defende que “organismos são algoritmos”. A proposta é simplificar para padronizar e por consequência desumanizar.

Suas leituras superficiais de textos sagrados denotam profundo desprezo pelos mistérios do mundo. Escreve, por exemplo que “a Bíblia foi um dos subprodutos da revolução agrícola” (P.: 86), inaugurando uma nova fase das relações entre humanos e animais. Para ele, a agricultura foi “uma revolução tanto econômica quanto religiosa” (p.: 103).

Ainda que o antropocentrismo tenha inúmeras mazelas, isso anula tudo o que a humanidade alcançou nos últimos milênios? Não seria mais arriscado entregar a responsabilidade da transformação necessária à tecnologia, que afinal é também uma criação humana?

Deuses da arrogância

Harari insiste que “os cientistas vão nos elevar à categoria de deuses” (p.: 105), misturando arrogância e megalomania. Para ele, as crenças, místicas e religiões ancestrais estão ultrapassadas, assim como o humanismo, a religião do ego. “A ideia fundamental das religiões humanistas, como o liberalismo, o comunismo e o nazismo, é que o Homo sapiens tem uma essência única e sagrada, fonte de todo o sentido e de toda a autoridade no universo”(p.: 105). Este seria o pecado original da atualidade.

Assim, ele conclui que a “alma não tem partes”, ignorando a sabedoria da própria tradição judaica, que estuda isso há milênios. Sua questão fundamental para defender a ideia é: por que Deus não criou o homem imortal como ele mesmo?

Nesse ponto Yuval Noah Harari demonstra alguma humildade. “Para ser franco, a ciência sabe surpreendentemente pouco sobre mentes e consciência”. Mas só para em seguida reafirmar sua crença tecnocrática: “A ortodoxia atual sustenta que a consciência é criada por reações eletroquímicas no cérebro e que as experiências mentais realizam alguma função essencial de processamento de dados” (p.: 115).

Poluição mental

É muito triste ver um historiador, que poderia criar uma obra para enriquecer a beleza contida na experiência do homem sobre a terra, fazer tanto esforço para torná-la pobre, insípida e tecnicamente explicável. “Toda dor e todo prazer experimentado por bilhões de criaturas durante milhões de anos são apenas poluição mental. Essa é uma ideia na qual vale a pena pensar, mesmo que não seja verdade. Mas é bem surpreendente constatar que, em 2016, trata-se da melhor teoria relativa à consciência que a ciência contemporânea tem a nos oferecer”(p.: 124).

Com uma análise primária de experimentos com animais, Yuval defende que ratos, macacos e outras espécies possuem empatia, sofrendo assim também do maldito “egoísmo” (p.:135). “Na essência, nós humanos não somos diferentes de ratos, golfinhos ou chimpanzés. Como eles, tampouco temos alma. Como nós, eles também têm consciência e um complexo mundo de sensações e emoções”, afirma ele, esquecendo que páginas antes havia dito que até hoje a ciência tem dificuldade para definir o que é consciência.

Para muito além dos equívocos da sua análise, são os perigos contidos em meias verdades e engodos interpretativos que preocupam na obra do aclamado autor. Não há problema em preferir mentiras convenientes à própria visão de mundo. O maior risco está nos impactos dessas distorções ao longo do tempo na vida das pessoas.

Não se trata de subestimar o instinto animal, ou defender o “especismo”, mas é nítida a tentativa de Harari de moldar uma narrativa onde tanto animais, quanto humanos não sejam especiais, e por isso se sujeitem à uma nova ordem imposta ao mundo. É um sonho antigo, surgido na segunda metade do século 19. Seu nome: Eugenia.

Eugenia velada

Yuval Noah Harari defende isso de forma sutil em “Homo Deus”. Sugere uma rendição absoluta dos humanos à tecnologia (seja ela qual for), com a intenção de melhorar, transformar ou até mudar a espécie. Para os desavisados, vale lembrar que essa ideia já foi testada, com resultados sombrios para quem acreditou.

É importante ressaltar que o autor não parece ser estúpido. Porém, só alguém muito mal-intencionado misturaria a inata necessidade empática dos seres humanos com o fato de terem dominado o planeta. Ele explica: “Por tudo que sabemos, somente os Sapiens são capazes de cooperar de modos muito flexíveis com um grande número de estranhos. Essa capacidade concreta – e não uma alma eterna ou algum tipo único de consciência – explica nosso domínio sobre o planeta Terra.” (p.: 139)

Valeria perguntar então: se a ciência ainda não tem uma explicação completa para a consciência ou mesmo para o fenômeno da empatia, como pode ele refutar a hipótese de que exista uma alma de fato? Ou, se “somos governados por emoções” (p.: 147), de onde elas vêm? Como de fato funcionam? Se nossa ciência está de fato tão avançada, por que continuamos com tantos problemas, alguns milenares, como a guerra? Não seria essa manipulação do divino e misterioso que nos mantém nessa condição? 

Até o momento, sabemos que quando a ciência soluciona um problema, ela acaba causando outros, vide o exemplo da indústria farmacêutica. Mas para o autor, tudo no ser humano pode ser resumido a algoritmos matemáticos. E essa abordagem tecnicista é o que gera desconfiança com a tese de “Homo Deus”.

“A escrita facultou aos humanos que organizassem sociedades inteiras num modelo algorítmico. Deparamos com o termo ‘algoritmo’ quando tentamos compreender o que são emoções e como o cérebro funciona e o definimos como uma série metódica de passos que pode ser utilizada para a realização de cálculos, a resolução de problemas e a tomada de decisões”, escreve Harari na página 168.

Na medicina, essa crença cartesiana advoga que regulamentos e protocolos são uma garantia de cura. Em outras palavras, por trás desse pensamento, supostamente inocente, está o dogma de que o nosso destino estaria “nas mãos do ‘sistema’, e não nas de mortais de carne e osso, que por acaso ocupam este ou aquele posto” (p.: 169).

Poder dos números

Mais adiante, ele explica como essa lógica numérica dominou as estruturas da sociedade para impor sua forma de pensar. “Foram os sistemas educacionais em massa da era industrial que implementaram as notas exatas numa base regular. Depois que tanto as fábricas como os ministérios governamentais se acostumaram a pensar na linguagem dos números, as escolas logo os acompanharam. Começaram a graduar o valor de cada estudante segundo sua nota média, enquanto o valor de cada professor e diretor era julgado de acordo com a média total da escola. Quando burocratas adotaram esse parâmetro. a realidade foi transformada” (p.: 176 – 177).

Quem conhece o sistema educacional sabe que essa lógica “objetiva” de avaliação  causa os principais problemas e ineficiências do sistema acadêmico-escolar nos dias atuais. 

O célebre historiador Israelense diz ainda que “religião é um trato, enquanto espiritualidade é uma jornada”. Até aí, nada demais. O problema é que seu argumento despreza ambos. “A maioria das pessoas simplesmente aceita as respostas predefinidas fornecidas pelas forças dominantes”(p.: 191). Independente dos graves pecados cometidos por todas as igrejas, é a obsessão pela “falsificação de Deus” (p.: 195) que torna o discurso do livro rancoroso e frio. Tudo parte da ideologia sutil de transformar o ser humano em uma máquina de carne e osso.

Aplicando ao texto a velha e boa ética da filosofia, fica escancarado o imbróglio que Harari tenta nos passar como panacéia salvadora para o futuro. Um receituário tecnocrata, onde pouco importa o sofrimento humano, que afinal pode ser equacionado e desprezado como inevitável e até desejável. Em resumo, para ele, trocar a religião pela ciência seria ideal, como se isso pudesse ser imposto a qualquer povo. 

Ilustração de Yuval Noah Harari em sua página no LinkedIn
Engodo globalista

O livro ainda procura agradar, abordando temas caros ao globalismo mundial como o aborto, o homossexualismo e as relações humanas em geral. “Quanto à ideia de que os judeus da Antiguidade preservaram cuidadosamente o texto bíblico, sem acrescentar ou subtrair coisa alguma, os cientistas ressaltam que o judaísmo bíblico não era, de todo, uma religião baseada numa escritura, e sim um culto típico da idade da pedra, semelhante ao de muitos de seus vizinhos no Oriente Médio”, escreve na página 201.

É como dizer que o judaísmo tradicional não passa de uma arma ideológica de elites egoístas e inescrupulosas. Para Yuval, tudo pura superstição e crendice. Coisa que só gente estúpida e manipulável acredita. Ironia à parte, o que ele não consegue responder é : como que tal estupidez conseguiu atravessar várias dezenas de séculos de opressão? 

Claro, Harari admite a interconexão histórica entre ciência e religião, e chega a tocar no ponto crucial, mas sem se aprofundar: “como instituições coletivas, a ciência e a religião preferem respectivamente ordem e poder acima da verdade. Por isso eles são bons companheiros. A busca inabalável da verdade é uma jornada espiritual, que raramente pode ficar confinada aos estamentos religiosos ou científicos” (p.: 205). 

Aqui, ele apresenta uma religião mais evoluída: o humanismo. Com a liturgia do ego, essa espiritualidade moderna, “que conecta ciência e humanismo, pode muito bem desmoronar e dar lugar a um tipo diferente de trato entre a ciência e alguma nova religião pós-humanista”. Essa é a aliança ideal, usada para defender a tese central de seu livro: os seres humanos serão melhorados pela tecnologia e devem, por esse motivo, se entregar de corpo e alma a tal proposta.

Mundo novo?

Antes de esmiuçar a ideia nefasta presente em “Homo Deus”, vale destacar algumas frases da obra para a reflexão:

– “Hoje é generalizadamente aceito que alguma versão de capitalismo de livre mercado é um caminho muito mais eficiente para garantir um crescimento de longo prazo, daí a proteção a fazendeiros ricos e à liberdade de expressão, mas os habitats ecológicos, as estruturas sociais e os valores tradicionais que se puserem no caminho do capitalismo de livre mercado serão destruídos e desmantelados” (p.: 215)

– “O capitalismo merece algumas congratulações por ter reduzido a violência humana e incrementado a tolerância e a cooperação” (p.: 215). 

No capítulo “A aliança moderna”, sobre economia, Harari expõe sua agenda. Tratando “conhecimento”, “energia” e “matérias primas” como bases do mundo, ele prevê que o efeito colateral real “da economia moderna é o colapso ecológico”. Um paradoxo na própria tese, já que antes ele colocava a ciência como a ferramenta capaz de solucionar todos os problemas humanos, incluindo a morte.

Não há surpresa. É propaganda elitista apresentada como pseudo-sabedoria. Em última análise, seu receituário é tecnocrático e irresponsável: “Se a camada de ozônio está definhando e nos expondo ao câncer de pele, deveríamos inventar filtros solares melhores e tratamentos mais eficazes para o câncer, promovendo com isso o crescimento de novas fábricas de filtros solares e centros de tratamento do câncer” (p.: 219). É como dizer que, se açúcar em excesso causa diabetes, devemos produzir mais insulina.

Revolução humanista

“Um número elevado de políticos e eleitores acredita que, enquanto a economia crescer, cientistas e engenheiros poderão sempre nos salvar do dia do juízo final. No que tange à mudança climática, muitos crentes verdadeiros do crescimento mantém a esperança de que haverá milagres”, afirma na página 221.

Com isso, quer nos convencer a apostar tudo na primazia da técnica. Antes, precisaríamos apenas abandonar as “persistentes superstições” que as religiões e a espiritualidade nos ensinam. “Não só temos muito mais poder como também, contra todas as expectativas, a morte de Deus não nos levou a um colapso social” (p.: 227). Mas não é justamente o colapso civilizacional que se aproxima, com o ocidente tomado por uma onda de libertinagem-hedonista aclamada como “ideologia Woke”?

Na defesa da “revolução humanista”, que levaria à religião do ego, numa linha evolutiva desde o liberalismo, passando pelo individualismo até o humanismo, Noah Harari usa, mais uma vez, ilações primárias fora da sua área de expertise. “Hoje as pessoas se casam por amor, e são seus sentimentos íntimos que valorizam essa ligação. Então, se os mesmos sentimentos que uma vez a atiraram nos braços de um homem agora a atiram nos braços de outro, o que há de errado nisso? Se um caso extraconjugal lhe permite extravasar desejos emocionais e sexuais que não são satisfeitos por seu cônjuge de vinte anos, e se seu amante é gentil, apaixonado e sensível a suas necessidades – por que não usufruir disso?” (p.: 231).

E ele apresenta tudo isso como uma coisa inofensiva e inédita, como se nunca tivesse sido tentada na história da humanidade, denotando profunda ignorância e preconceito a respeito da sua própria cultura e religião de origem. Mais adiante, o humanismo dele se revela um fascismo tecnocêntrico, onde o ego individual é apenas a porta de entrada para uma nova forma de tirania.

“Na ética, o lema dos humanistas é: Se lhe parece bom, faca-o. Na política, o humanismo nos diz que o eleitor está com a razão. Na estética, para o humanismo a beleza está nos olhos do observador” (p.: 236). É inevitável que tais ideias, aliadas à ânsia por eficiência e melhoramento, desemboquem em caminhos autoritários, só que desta vez determinados pela máquina.

Odisséia narcisista

Nessa parte o texto fica nitidamente racista e preconceituoso. “Os cientistas não são capazes de chegar a tais juízos éticos. Nenhuma quantidade de dados e nenhum artifício matemático podem provar que é errado assassinar” (p.: 243). Porém o que parece um arroubo de sobriedade, se converte logo em um artifício para sugerir mais uma solução mágica.

“Não nascemos com uma consciência sob medida e pronta para ser usada. No decurso de nossa vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente sou eu” (p.: 245). Em resumo, somos suficientes a nós mesmos para saber o que é certo ou errado. E nessa odisséia narcisista não precisaríamos de filosofia e muito menos de psicologia.

A coisa fica mesmo pesada quando nosso gênio da historiografia humana mete-se a falar da “verdade sobre a guerra” (p.: 248). Sem nenhum pudor, escreve na página 259 o seguinte:  “Alguns humanos simplesmente são superiores a outros, e, quando experiências humanas colidem, os humanos mais aptos devem prevalecer sobre quaisquer outros. A mesma lógica que leva o gênero humano a exterminar lobos selvagens e a explorar implacavelmente carneiros domesticados também comanda a opressão de humanos inferiores por seus superiores. É bom que europeus conquistem africanos e que homens de negócios sagazes levem os incompetentes à bancarrota. Se seguirmos essa lógica evolutiva, o gênero humano irá se tornar gradualmente mais forte e mais apto, fazendo surgir os super-humanos”… “No entanto, se em nome dos direitos humanos ou da igualdade humana enfraquecermos os humanos mais aptos, isso evitará o surgimento do super-homem e poderá mesmo causar a degeneração e a extinção do Homo Sapiens”.

Tamanho absurdo poderia ser refutado e confrontado com inúmeros contra-argumentos, mas no caso basta dizer que essa mesma ideia de “super-humanos” foi uma das peças principais de propaganda e promoção de uma famosa ideologia política: o nacional socialismo.

Pseudociência

Harari segue reinventando a ética e os valores que definem o conceito de “humano”. “A experiência de um Einstein ou de um Beethoven é muito mais valiosa do que a de um bêbado que não serve para nada, e é ridículo considerar que seus méritos são iguais. Da mesma forma, se determinada nação tem consistentemente liderado o progresso humano, poderíamos com razão julgá-la superior a outras nações que contribuíram com pouco ou nada para a evolução do gênero humano”.

Darwinismo-social ou relativismo cultural? Não importa, basta dizer que esse mesmo discurso já foi defendido por uma pseudociência chamada “Eugenia”, e que um dos seus grandes adeptos foi Adolf Hitler.

Na página seguinte, Yuval Noah Harari conclui que ” a experiência da guerra impulsiona o gênero humano a novas conquistas” (p.: 260). E, em seguida, confessa admirar o principal algoz de seu povo no século XX: “A experiência da guerra revelou a Hitler a verdade quanto ao mundo: uma selva conduzida pelas leis desapiedadas da seleção natural. Os que se recusam a reconhecer essa verdade não são capazes de sobreviver. Se você quer ser bem sucedido, tem de não só compreender as leis da selva, como abraçá-las jubilosamente” (p.: 261). Parece, assim, ignorar como acabou todo esse júbilo de Hitler.

Mesmo acertando que o “humanismo evolutivo” moldou a cultura moderna, com resultados visíveis, é o seu apoio a esse futuro inevitável que choca o leitor atento. Os argumentos se repetem, com exemplos simplistas e ilações equivocadas, mas sempre com um tom intelectual autêntico. Ele não percebe as contradições, como quando defende o humanismo como nova religião, onde o gosto de cada um é o mais importante na estética, enquanto diz que “algumas culturas humanas são superiores a outras”. 

Propósito elitista

Esse elitismo revela o propósito do livro: servir de propaganda à nova ordem mundial planejada e em execução pelos mecenas do Fórum Econômico Mundial. Isso fica claro no insistente ataque à religião. “Enquanto todos nós concordamos que Deus está morto e que somente a experiência humana dá significado ao universo, importa realmente se achamos que todas as experiências humanas são iguais ou que algumas são superiores às outras?” (p.: 266). 

Só alguém que se julga parte de uma elite universal diria isso, onde os humanos mais aptos devem se proteger da mediocridade para evitar a extinção de toda a espécie. Claro, Harari escreve tais absurdos sutilmente, adotando uma tática de criticar e elogiar o liberalismo, o socialismo, o fascismo e até o nazismo, dificultando saber o que ele realmente defende. Ao final, fica claríssimo que, para ele  a China é “a mais promissora base experimental para as novas tecno-religiões que surgem no Vale do Silício” (p.: 273). 

A partir daí, o livro fica repetitivo e desprovido de qualquer insight autêntico, alternando “Deus está morto” e o discurso da sua “técno-religião” a cada página. Tudo resumido num clichê intelectual retirado das teorias de comunicação de massa: “Novas tecnologias matam deuses antigos e fazem nascer novos”. Também há muitos  espaços para frases sem sentido como: “Sem algumas convicções religiosas, as locomotivas não conseguem decidir para onde ir” (p.: 273). Mas o que isso importa? O foco é a mensagem de propaganda de “Homo Deus” como um futuro inevitável.      

Júbilo insano

Interessante que nos últimos capítulos do livro, ele culpa idéias de esquerda pela situação atual. “Os socialistas criaram uma admirável religião nova para um admirável mundo novo. Prometeram a salvação por meio da tecnologia e da economia, estabelecendo a primeira tecno-religião na história, e mudaram os fundamentos do discurso ideológico. Antes de Marx, as pessoas se definiam e se dividiam de acordo com o modo como viam Deus, e não segundo os métodos de produção. Depois de Marx, as questões envolvendo tecnologia e estrutura econômica tornaram-se muito mais importantes e delimitantes do que discussões sobre a alma e o pós-vida” (p.: 277).

E ele segue com sua visão tecnocrata. “Quando os cientistas abriram a caixa-preta do Sapiens, não acharam lá nem alma, nem livre arbítrio, nem um ‘eu’ – somente genes, hormônios e neurônios” (p.: 286). Segundo o historiador do amanha, “livre-arbítrio só existe em histórias imaginárias inventadas pelos humanos” (p.: 287).

Tudo isso prepara o terreno para seu receituário supremacista. A escolha de palavras para descrever coisas fundamentalmente humanas mostra o esforço em desconstruir a beleza contida em coisas ancestrais. Um bom exemplo é como ele apresenta a experiência do parto para as mulheres.

“Em virtude dos tormentos insuportáveis que sofrem as mulheres no parto, poderíamos pensar que, depois de vivenciar alguma vez um deles, nenhuma mulher sã concordaria em passar por isso novamente. No entanto, após o trabalho de parto  e nos dias seguintes, o sistema hormonal secreta cortisol e betaendorfinas, que reduzem a dor e produzem uma sensação de alívio, às vezes até de júbilo. Além disso, o amor cada vez maior pelo bebê, a aprovação de amigos e familiares, dogmas religiosos e propaganda nacionalista conspiram para transformar o parto de um trauma terrível em memória positiva” (p.: 300).

Termos como “tormentos”, “mulher sã”, “até de júbilo”, “dogmas”, “propaganda” e “conspiram” destacam o desprezo de quem nunca passou pela experiência da paternidade e talvez nunca passe por ela.

Dissonância cognitiva

É uma visão fria do “sentido da vida”, melhor captada pela arte que pela lógica da ciência. Triste ver um historiador notório com uma visão totalitária, achando que a solução é tornar a realidade mais desumana. “Humanos são os mestres da dissonância cognitiva, e nos permitimos acreditar em uma coisa quando estamos no laboratório e em outra totalmente diferente quando estamos no tribunal ou  no parlamento”(p.: 308), diz o autor, como se ele mesmo não cometesse tal erro inúmeras vezes no seu livro.

Motoristas de táxi, jornalistas, advogados, vendedores, administradores e até médicos – todas as profissões, para Harari, serão substituídas pela inteligência artificial. Ainda que isso seja verdade, será que o humano se tornará dispensável? Essa mudança é desejável? O israelense prefere o fatalismo já que “resistir é inútil”. Na verdade, para ele devemos todos aceitar que a maioria de nós já era inútil quando o seu livro foi publicado, corroborando precisamente com a agenda do Fórum Econômico Mundial.

“Homo-Deus” propõe flexionar a ética humana. Fazer dela uma filosofia mais evoluída, transhumana. “O que vai acontecer quando algoritmos nos suplantarem nas ações de lembrar, analisar e reconhecer padrões?”, indaga. Como resposta são apresentados seus três princípios tecnocráticos:

  • 1. Organismos são algoritmos
  • 2. Cálculos algorítmicos não são afetados pelos materiais onde ocorrem
  • 3. Algoritmos orgânicos serão superados pelos algoritmos não orgânicos (p.: 322).

A curiosidade básica que surge é porque os computadores não apareceram antes dos homens? Com a arrogância disfarçada de conhecimento, o autor levanta questões ancestrais, como se fossem novas. Típico de uma geração que atingiu o seu máximo graças à técnica. “99% das qualidades e aptidões humanas são simplesmente redundantes para a maior parte das tarefas modernas” (p.: 325). Nesse mundo-máquina, até a arte é obra de cálculos e padrões.

Harari confunde, talvez propositalmente, criar com imitar. Algo compreensível para quem defende a inexistência da alma. Um pensamento perverso, que propõe flexibilizar a ética para que as pessoas possam ser mais livres. “No século XXI, poderíamos assistir à criação de uma maciça classe não trabalhadora: pessoas destituídas de qualquer valor econômico, político ou artístico, que em nada contribuem para a prosperidade, o poder e a glória da sociedade. Eles não estarão simplesmente desempregados, eles serão inempregáveis.”

Drogas e jogos

Mas não há preocupação. “A bonança tecnológica provavelmente fará com que seja factível alimentar e sustentar essas massas inúteis mesmo sem nenhum esforço por parte delas?” (p.: 330). Seria o mundo dos sonhos de qualquer adolescente de grande cidade, passar o dia inteiro tomando drogas e jogando games no computador. Parece piada, mas é isso mesmo que Harari receita para evitar a depressão coletiva. Um eugenista moderno diria o mesmo. “Um desenvolvimento como esse desferiria um golpe mortal na crença liberal da sacralidade da vida e das experiências  humanas. O que há de tão sagrado em vagabundos inúteis que passam seus dias devorando experiências artificiais em Lala-land?”.

Como todos, Yuval Noah Harari cultiva nitidamente uma imagem idealizada de si. Com psicologia barata, diz que a liberdade dá autoridade ao individuo, sem explicar em relação a quê essa liberdade/autoridade é exercida. Tudo para reafirmar que o mundo seria muito melhor se o sistema, ou as máquinas tomassem as decisões por nós. Até sobre o que é belo.

Ainda que as máquinas e os softwares evoluam até o ponto de substituir os humanos em todas as suas tarefas, é da natureza se adaptar e evoluir. Não será o “autoconhecimento por meio de números” (p.: 334) que irá aplacar o instinto natural do homem. Assim como não será o DNA, ou sua manipulação, que vai solucionar os principais dilemas da espécie. 

“Os algoritmos não se rebelam nem nos escravizam. E, sim, serão tão bons em tomar decisões por nós que seria loucura não seguir a sua recomendação” (p.: 337). Será mesmo? Parece na verdade que Harari não sabe direito como funciona um algoritmo. 

Ele prega por exemplo o uso da genética como forma de prevenção, mas esquece de falar em precaução na hora de defender o uso de tecnologias incipientes e que ainda são quimeras na prática. Como o “serviço médico e de saúde onisciente” que o Google nos oferecerá de graça, em troca, claro de todos os nossos dados e informações. Para o autor tal generosa oferta “não só combaterá epidemias, como nos blindará contra o câncer, ataques cardíacos e o Alzheimer” (p.: 339).

Livre arbítrio final

Fica a dúvida: Harari é patrocinado pelo Google e outras empresas que ele cita como arautos do futuro transhumano?

“Em troca de serviços de aconselhamento tão dedicados, só temos de abrir mão da ideia de que humanos são indivíduos e de que todo humano tem livre-arbítrio para determinar o que é bom, o que é belo e o que é o sentido da vida. Os humanos não serão mais entidades autônomas direcionadas pelas histórias que o eu da narrativa inventa. Em vez disso, serão parte de uma imensa rede global” (p.: 341). Seria mais fácil propor que virássemos máquinas de uma vez. 

É o que o famoso autor israelense defende. “Depois de concluir que organismos são algoritmos, os biólogos derrubaram o muro entre o orgânico e o inorgânico, transformaram o viés da revolução computacional de uma questão puramente mecânica num cataclismo biológico e transferiram a autoridade de humanos individuais para algoritmos em rede” (p.: 347).

Corretamente ele diz que “a transferência da autoridade de humanos para algoritmos está acontecendo a nossa volta, não como resultado de uma decisão governamental, e sim devido a uma inundação de escolhas mundanas”. Por isso, sugere que o melhor a fazer é anteciparmo-nos à mudança.

O risco é claro. Todo controle centralizado, seja da nossa saúde, comportamento ou até pensamentos, carrega em sí um risco extremo de que se perdermos o controle, no caso pelo hackeamento, estaremos para sempre escravizados.

Capa da edição em Português do livro supremacista “Homo Deus” (2016)
Mundo novo

Nesse maravilhoso mundo novo, a ameaça viria de quem pensa por si. Serão os “super-humanos” que ao final controlariam o sistema e por consequência os humanos da “casta inferior”, o que, na premonição de Homo Deus, “destruirá os fundamentos da ideologia liberal”.

Claro, para quem vê o indivíduo como “uma fantasia religiosa” (p.: 348), nada melhor que entregar o mundo a uma tecnocracia atéia. Um “upgrade” que nos deixará mais felizes e que “não será necessariamente um mundo ruim; será, contudo, um mundo pós-liberal.”

Pode-se dizer com tranquilidade que Yuval Noah Harari defende um fascismo tecnocrático, onde os problemas antigos serão ignorados por afligirem apenas os “inferiores”, e fazendo com que os “superiores” e seus recursos se concentrem apenas em aprimorar a própria condição. As “massas de gente pobre e inútil” serão entregues à própria sorte, enquanto as elites se dedicarão a serem transformados em “super-humanos”.

Os “divinoides” (p.: 353), como são chamados no livro os que ainda acreditam em Deus, colapsariam com a nova realidade, sendo gradativamente domados por drogas e entretenimento hedonista. A tecnologia suplantará Deus, e a “religião dos dados” computacionais decretará que os humanos de hoje “já completaram sua missão cósmica” (p.: 354).

E o autor israelense se apressa em desfazer a inevitável comparação. “Enquanto Hitler e sua corja planejavam criar super-humanos por meio da procriação seletiva e da limpeza étnica, o tecno-humanismo do século XXI espera atingir o objetivo muito mais pacificamente, com a ajuda da engenharia genética, da nano-tecnologia e de interfaces entre o cérebro e o computador” (p.: 355). Faltou lembrar que só ricos terão acesso a essa melhoria.

Com ilações baseadas em dados e presunções superficiais em distintas áreas da ciência, Harari exalta o novo padrão numérico e objetivo para medir a importância da experiência humana. Alerta de forma geral para os perigos inerentes a tal experimento, mas insiste que não temos escolha. 

“De fato o terno-humanismo pode resultar em um downgrade, ou seja, na degradação dos humanos. O sistema pode preferir humanos degradados não porque possuiriam destrezas super-humanas, e sim porque lhes faltariam algumas qualidades humanas realmente perturbadoras que interferem no sistema e o desaceleram” (p.: 366).

A solução é abrirmos mão da nossa própria consciência, afinal ela é algo demasiado abstrato, e entregarmos o poder de decisão para o “deus-máquina”, este sim imbuído das melhores intenções e infalível. Na prática, “vamos oferecer Ritalina à advogada perturbada, Prozac ao soldado com sentimento de culpa e Cipralex à esposa insatisfeita. E isso é apenas o começo” (p.: 367).

Dataísmo sem-vergonha

Com um tom inocente, ele apresenta tais receitas como se tivessem sucesso garantido, “ao passo que a dosagem certa da substância química certa melhorou significativamente o bem-estar e os relacionamentos de muitos”. O autor acha bom que o ser humano brinque de Deus. O ideal, no caso seria, não apenas programar o corpo, mas a psique e a mente.

A lavagem cerebral seria usada para o bem do mundo, moldando as intenções e desejos e acabando com os dramas humanos. Para isso virar realidade, teremos que abrir mão de algo fundamental. Harari confirma isso sem um pingo de vergonha: “Jamais poderemos lidar com essas tecnologias enquanto acreditarmos que a vontade e a experiência humanas são a fonte suprema da autoridade e do significado” (p.: 369). Para ele, melhor é abraçarmos o “dataísmo”, a nova religião que venera dados, transformando assim “a própria natureza da vida” (p.: 371). 

Com generalizações grosseiras, ele tenta provar a sua tese. “À medida que o volume e a velocidade dos dados aumentam, instituições veneráveis, como eleições, partidos e parlamentos, podem tornar-se obsoletas”(p.:376). “Hoje, a velocidade das revoluções tecnológicas ultrapassa a dos processos políticos, o que faz com que tanto parlamentares como eleitores percam o controle” (p.: 377).

Mas não tenha medo: “Isso não quer dizer que vamos retornar às ditaduras ao estilo das do século XX. Os regimes autoritários também parecem ter sido superados pelo ritmo do desenvolvimento tecnológico, bem como pela velocidade e pelo volume do fluxo de dados” (p.: 378).

“Qualquer que seja a sua opinião sobre Lênin, Hitler ou Mao, não pode acusá-los de não terem sido visionários”. Ele ao final acusa a mediocridade atual para defender o seu receituário: “no início do século XXI a política está desprovida de grandes visões”. E mais uma vez lança um porém: “Considerando que algumas das grandes visões políticas do século XX levaram a Auschwitz, Hiroshima e ao Grande Salto para a Frente, talvez estejamos melhor nas mãos de burocratas medíocres”(p.: 379).

Teoria da conspiração

Ao mesmo tempo, Yuval atribui à complexidade do sistema a razão para que muitos dos persistentes problemas humanos continuem existindo. Segundo o escritor, a existência de “uma pequena panelinha de bilionários que secretamente governam o mundo” (p.: 380), não passa de uma mera teoria da conspiração.

Ainda que ele acerte quanto ao papel desempenhado por invenções como a escrita e o dinheiro, lhe falta a análise precisa sobre a razão para tais invenções. Teriam elas de fato sido apenas resultado de uma evolução natural e orgânica, ou foram técnicas difundidas por interesses bem definidos? Da mesma forma a democracia e o livre mercado, a quem servem e quem são os seus senhores?

Harari prevê que quando a internet aumentar a eficiência dos sistemas humanos atuais, o Homo Sapiens tende a desaparecer.  “Esse sistema de processamento de dados cósmico seria como Deus. Estaria em toda parte e controlaria tudo, e os humanos estão destinados a ser fundir dentro dele” (p.: 384).

“O Homo sapiens é um algoritmo obsoleto. Afinal, que vantagem levam os humanos sobre as galinhas?… os humanos têm emoções mais profundas e aptidões intelectuais superiores. Mas lembre-se que, segundo nosso dogma biológico atual, emoções e inteligência são somente algoritmos” (p.:384). Tirando Deus da equação, o que Harari faz é nivelar por baixo, ao final todos somos galinhas. 

É a “internet de todas as coisas” e por isso “não podemos deixar nenhuma parte do Universo desconectada da grande rede da vida” (p.: 385). Nesse novo contexto “liberdade de informação” não significa “liberdade de expressão”, esse último “o velho ideal liberal”.

Além da apologia à liberdade de informação, está a discussão sobre os limites dela, o que em outras palavras se traduz em direito à privacidade. “As pessoas só querem ser parte de um fluxo de dados, mesmo que isso signifique abrir mão da privacidade, da autonomia e da individualidade” (p.: 387). 

Mesmo que isso seja verdade nos dias de hoje, não é a falta de uma certa precaução que nos apresenta um dos maiores dilemas e perigos da atualidade? Harari aposta num ‘lais se faire’ digital como a melhor abordagem para todos. Segundo ele a atual superioridade das experiências humanas não passa de um “embuste sentimental” (p.: 391).

Apologia da máquina

O autor defende o “dataísmo” com uma analogia ridícula sobre o “amor”. “Vocês acham realmente que um supercomputador onisciente ou alienígenas que conseguiram conquistar toda a galáxia ficariam aturdidos diante de um surto hormonal?”… “O dataísmo solapa nossa principal fonte de autoridade e significado e anuncia uma tremenda revolução religiosa” (p.: 391). É o que ele chama de “visão datacêntrica” (p.: 392).

“Ouçam os algoritmos! Eles sabem como você se sente”. (p.: 394). Pois a ameaça aparece justamente quando um algoritmo do Google aprende a reconhecer padrões e “a adotar estratégias que escapam à mente humana” (.:395). Para Harari tomar decisões não é algo tão importante que não possa ser colocado a cargo de um computador.

“É provável que um exame crítico do dogma dataísta seja não apenas o maior desafio científico do século XXI, como também o mais urgente projeto político e econômico” (p.: 396). A idéia é apostar nessa super-ditadura informacional, como um caminho para o super-humano e a imortalidade. “Descobriremos que não somos afinal o ápice da criação” (p.: 397).

Nas últimas páginas reitera o intento de sua obra. “Este livro rastreia as origens de nosso condicionamento atual a fim de que afrouxemos seu domínio e pensemos de modo muito mais imaginativo sobre nosso futuro” (p.: 398). É praticamente o sonho idealizado de qualquer tirano ou ser humano que se julgue superior a todos os seus semelhantes.

As perguntas na última página são de cunho mercadológico e já estão respondidas se acreditarmos na pregação que Yuval Noah Harari faz ao longo das quase 400 páginas do seu livro. Por fim, para quem de fato está vivo, a vida é bonita assim mesmo, cheia de mistérios e coisas que ainda precisamos descobrir por nós mesmos, e não através de algoritmos no computador, mesmo que esses possam nos ajudar.     

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