Capa da edicao de 2006 do livro “Political Ponerology”, de Andrej Lobaczewski.

Psicopatia do poder foi desvendada muito antes de Epstein

Muito antes do nome de Jeffrey Epstein aparecer nas manchetes dos jornais, um psiquiatra polonês começou a estabelecer o conhecimento clínico sobre a manifestação do mal nos círculos governamentais. Nascido nas montanhas ao sul da Cracóvia em 1921, Andrej Lobaczewski descobriu muito cedo como o poder pode corromper por completo qualquer esperança de transformação social pela política.

Membro convicto da resistência polonesa à invasão Nazista, Dr. Lobaczewski dedicou boa parte da sua juventude lutando para livrar seu país dos fascistas. Mas só para descobrir em seguida que a solução defendida na época seria tão amarga quanto o problema contra o qual lutava.

Foi sua frustração frente à solução soviética que o inspirou a escrever a primeira versão de „Ponerologia política“ (Political Ponerology). Trata-se de um estudo interdisciplinar inédito da “ciência do mal” aplicada à política. Embasado em conclusões e dados de inúmeros pesquisadores anteriores a ele, o estudo combina esses resultados e generalizações com as próprias observações e testes de Lobaczewski, criando assim o que ele mesmo descreveu como „uma introdução geral para o fenômeno macrossocial que nos rodeia“.

O autor conta no prefácio do livro que o primeiro manuscrito foi jogado no fogo, pouco antes de uma batida da polícia secreta na Polônia comunista. E esse foi apenas o primeiro dos muitos mistérios que acompanharam a obra até seu lançamento oficial em 2006, um ano antes da morte de Lobaczewski. Segundo ele, outra cópia do texto foi entregue pessoalmente a um contato dentro do Vaticano, mas também desapareceu. Houve ainda uma terceira versão do original, reunida na década de 1980 em Nova York. Mas esta, da mesma forma, foi impedida de ser publicada.

Verdade ou mito, o fato é que „Political Ponerology“ foi forjado no cadinho do totalitarismo, durante as décadas que passou sob o jugo opressivo dos regimes nazista e comunista. A tese da obra é simples, e independe da ideologia política imposta no momento. “Se um indivíduo em uma posição de poder político é um psicopata, ele ou ela pode criar uma epidemia de psicopatologia em pessoas que não são, essencialmente, psicopatas”, traz um trecho logo nas primeiras páginas.

A proposta holística beira o misticismo, mas é corroborada por inúmeros estudos para muito além da ciência médica. Alguns deles estão documentados em outro livro sobre o tema: „O Efeito Lúcifer – Como pessoas boas se tornam más“ (The Lucifer Effect), lançado pouco depois de Ponerologia Política. Escrito por Philip Zimbardo, professor emérito de psicologia da Universidade de Stanford, o texto é considerado como correlato ao trabalho de Lobaczewski.

Profético

Décadas à frente de seu tempo e repleto de insights únicos e profundidade de visão, Political Ponerology explora um gênero de psicopatas altamente adaptados e charmosos que moldam partidos políticos, instituições e mídia à sua visão de mundo depravada, dividindo e hipnotizando populações inteiras e pavimentando um caminho virtuoso para o genocídio, a repressão em massa e os campos de concentração.

“Eles – psicopatas e quase psicopatas – têm sucesso nos tipos de trabalho de vendas mais inescrupulosos, porque sentem grande prazer em “enganar os outros”, saindo impunes – e têm muito pouca consciência sobre defraudar seus clientes. Nossa sociedade está se tornando rapidamente mais materialista, e o sucesso a qualquer custo é o credo de muitos empresários. O psicopata típico prospera nesse tipo de ambiente e é visto como um “herói” dos negócios“, profetisa o livro.

Da escuridão dos regimes do passado, Ponerologia Política traz as chaves para compreender e se proteger dos ideólogos fascinantes de hoje e dos ditadores de amanhã. Acima de tudo, as informações e relatos contidas nele provam que os fatos do caso Epstein são velhos acompanhantes das elites do mundo.

Edicao em português do livro “Political Ponerology” com prefácio de Olavo de Carvalho lancada em 2014.
“Patocracia”

“A política não é exceção e, por sua própria natureza, tende a atrair mais “tipos dominadores” patológicos do que outras áreas. Isso é lógico, e começamos a perceber que não era apenas lógico, mas também terrivelmente preciso; terrível porque a patologia entre as pessoas no poder tem efeitos desastrosos sobre todas as pessoas sob o controle desses indivíduos patológicos”, ensina.

Refletindo sobre a realidade de governos no mundo inteiro, é inevitável perceber que a transdisciplinaridade contida nas análises da obra ajudam a desvendar o fenômeno autoritário e inescrupuloso da atualidade, independente da região geográfica e da corrente política no poder. Em todos os lugares e partidos a fórmula parece ser a mesma.

“A alta incidência de sociopatia na sociedade humana tem um efeito profundo sobre o resto de nós que também temos que viver neste planeta, mesmo aqueles que não sofreram traumas clínicos. Os indivíduos que constituem esses 4% esgotam nossos relacionamentos, nossas contas bancárias, nossas realizações, nossa autoestima, nossa própria paz na Terra… No fenômeno macrossocial que mais tarde chamaremos de “patocracia”, uma certa anomalia hereditária isolada como “psicopatia essencial” é catalítica e causalmente essencial para a gênese e sobrevivência do mal social em grande escala.”

Para Lobaczewski “a besta da calamidade arbitrária sempre esteve conosco”. Na tradução literal do Grego, patocracia seria governar (kratos) pelo sofrimento ou pela enfermidade (pathos), o que não é uma novidade para a raça humana. Da mesma forma, as tentativas de explicar o fenômeno.

Durante seus estudos na Universidade Yagiellonian na Cracóvia sob o regime comunista, Lobaczewski voltou sua atenção para as questões da psicopatologia, especialmente para o papel dos líderes psicopatas em tal sistema. No livro ele lembra de um professor enviado à universidade para doutrinar os alunos e colegas. Nesse ambiente inicia o trabalho clandestino de um grupo de cientistas da geração mais velha. „Nós estudávamos a nós mesmos, já que sentíamos que algo estranho tinha invadido nossas mentes e algo valioso estava se esvaindo de forma irreparável“, relata ele no texto.

O grupo foi desmantelado pouco depois pelas autoridades de segurança, e o Dr. Lobaczewski tornou-se então aquele que conseguiu finalizar a pesquisa e colocá-la no papel. Mas não foi um caminho fácil.

Trabalhando em um hospital psiquiátrico, depois em um hospital geral e em um serviço aberto de saúde mental, o autor aprimorou suas habilidades em diagnóstico clínico e psicoterapia. Finalmente em 1977, quando as autoridades suspeitaram que ele sabia demais sobre a natureza patológica do sistema, o psiquiatra conseguiu emigrar para os EUA. Ainda assim, apesar da aparente liberdade, todas as tentativas de publicar o trabalho em Nova York fracassaram.

Somente após voltar à Polônia em 1990, Andrej Lobaczewski conseguiu trabalhar para „soldar“ os dados e análises nas quinhentas páginas do livro e publicá-lo um ano antes da sua morte. A obra é hoje reconhecida como seminal no campo interdisciplinar da „ciência do mal“. Ela aborda diretamente fenômenos como a psicopatia e o narcisismo em sistemas de poder, combinando psicologia, sociologia e história para compreender a gênesis do mal em instituições de governo.

Olavo de Carvalho escreveu o prefácio da edição em português da obra, lançada em 2014. Para o intelectual brasileiro, o que o Dr. Lobaczewski e seus colaboradores descobriram foi:

  1. „Só uma classe psicopatas tem a agressividade mental suficiente para se impor a toda uma sociedade por esse meios.“
  2. „Quando os psicopatas dominam, a insensitividade moral se espalha por toda a sociedade, roendo o tecido das relações humanas e fazendo da vida um inferno.“
  3. „Isso acontece não porque a psicopatia seja contagiosa, mas porque aquelas mentes menos ativas que, meio às tontas, vão se adaptando às novas regras e valores, se tornam presas de uma sintomalogia claramente histéria, ou histeriforme. O histérico não diz o que sente, mas passa a sentir aquilo que disse – e, na medida em que aquilo que disse é a cópia de fórmulas prontas espalhadas na atmosfera como gases onipresentes, qualquer empenho de chamá-lo de volta às suas percepções reais abala de tal modo a sua segurança psicológica emprestada, que acaba sendo recebido como uma ameaça, uma agressão, um insulto.”

Ponerologia política (Sumário semântico)

Definição: Derivado da palavra grega „poneros“ (mal), estuda a natureza, as causas e o desenvolvimento do mal nas estruturas sociais e políticas.
Conceito central: Investiga como indivíduos com distúrbios de personalidade (frequentemente descritos como «patocratas») podem ganhar controlo sobre os mecanismos estatais e corrompê-los.
Abordagem interdisciplinar: Combina insights da psicologia, sociologia, filosofia e história para explicar fenómenos como limpeza étnica, despotismo e guerra agressiva.
Objetivo: O objetivo principal é compreender os mecanismos psicológicos que permitem que lideranças injustas, imorais ou destrutivas e, muitas vezes, patologicamente motivadas, surjam e influenciem a sociedade.

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