A jornalista Gabriele Krone-Schmalz em 2018

Uma dama do jornalismo enfrenta a propaganda de guerra na Alemanha

Às vésperas de completar 80 anos, a premiada jornalista Gabriele Krone-Schmalz continua uma pedra no sapato do governo alemão e sua política para o conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Ela foi correspondente da ARD, a principal rede pública do país, em Moscou entre 1987 e 1991. Posteriormente, apresentou o programa “Kulturweltspiegel” da mesma rede até 1997. Foi também professora de jornalismo na Universidade de Iserlohn até 2022 e membro do Comitê Diretor do Diálogo de São Petersburgo até 2023. 

Desde o início da guerra, Krone-Schmalz foi progressivamente cancelada e condenada ao ostracismo por suas posições relativas ao conflito, que ainda ameaça se espalhar por toda a Europa. Chamada pejorativamente de “defensora de Putin”, ela não se rendeu e passou a participar de eventos públicos, onde faz uma crítica contundente à política belicosa da Europa contra os russos. A maioria das suas palestras pode ser assistida em seu canal no YouTube, onde fica claro as razões para que a jornalista incomode tanto os governos de quase todos os países da União Europeia.

Um desses eventos foi a conferência apresentada em 16 de Janeiro do ano passado na Universidade de Hamburgo, a convite de um grupo de estudos da faculdade de Ciências Sociais (https://krit-sowi-uhh.de/). O tema do evento, “Jornalismo pela paz contra a “preparação para a guerra””, dá uma ideia da abordagem inconveniente para os atores do mainstream. Entre os assuntos tratados estão “a mudança da cultura do debate e a cobertura da mídia”, “padrões históricos para um jornalismo responsável e de qualidade” e “como atualizar e aplicar tais padrões diante da guerra da Rússia contra a Ucrânia”. Ao final da sua palestra, fica fácil entender porque ela se tornou uma das figuras mais incômodas para as autoridades que insistem em continuar alimentando o belicismo, em detrimento da busca pela diplomacia e pela paz. 

Abaixo estão os principais trechos da palestra. Eles são munição pesada contra a narrativa insana propalada por lideranças como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia e o próprio chanceler alemão, Friedrich Merz. Confiram: 

Gabriele Krone-Schmalz, Hamburgo, 16 de Janeiro de 2025

“Não seria a primeira vez na história que a criação de imagens de inimigo e a demonização do adversário servem para preparar toda uma sociedade para a guerra. E uma narrativa importante da atualidade consiste em substituir a imagem de inimigo da União Soviética, da Guerra Fria, pela imagem de inimigo da Rússia. Trata-se de encenar uma ameaça que não existe. Mas é justo esse discurso que cria a possibilidade hoje de ataques contra a Alemanha, já que nossos belicistas estão nos levando cada vez mais em direção à Terceira Guerra Mundial. 

O que está realmente em jogo? E quero deixar isso bem claro, é que, se os enormes esforços para apoiar a Ucrânia na guerra contra a Rússia devem continuar, então é preciso alimentar o medo de um ataque russo além da Ucrânia, para que a população aceite tudo sem reclamar.

Faz parte desse conjunto, aliás, a alegação de que nossa liberdade e nossa democracia são defendidas na Ucrânia. Isso não é verdade desta vez, assim como não foi verdade naquela época no Afeganistão, quando se dizia que nossa liberdade e nossa democracia estavam sendo defendidas no Hindu Kush.

Infelizmente, há sempre exemplos na história que mostram que os estereótipos de “amigo” e “inimigo” e a demonização do adversário servem para preparar toda uma sociedade para a guerra. Os conceitos de “capacidade de autodefesa” e “capacidade de defesa”, que até então eram fundamentais para o nosso país, foram gradualmente substituídos por termos como “prontidão para a guerra” e “capacidade bélica”. E isso, enquanto não há nenhum clamor da sociedade.

Há um preceito de paz na nossa Constituição. Lá não se fala em “prontidão para a guerra”. Existe a Carta da ONU, à qual se recorre com tanta frequência, e também nela está escrito algo diferente do que agora é apresentado como obrigação moral.

A professora Krone-Schmalz já tem palestras marcadas para todo o ano de 2027. O Título geral e abrangente pode servir a qualquer contexto: “Rússia – Chance ou Risco”

A questão da identidade

Antes de abordar o papel da mídia, vamos dar uma olhada mais detalhada na Ucrânia. O Estado, tal como o conhecemos hoje, existe desde o verão de 1991. Ou seja, nem mesmo 34 anos. Essa região tem uma história muito conturbada, marcada por diversas disputas em torno dela. Além disso, nunca foi habitada exclusivamente por pessoas que se identificavam como ucranianos. Sempre houve fortes minorias étnicas e religiosas na região. Sejam russos, poloneses, alemães, romenos, tchecos ou, inclusive, judeus e muçulmanos. Isso inevitavelmente cria um problema em relação à identidade ucraniana.

Os conflitos acirrados em torno da identidade ucraniana já têm uns bons 150 anos. Se olharmos apenas 100 anos para trás, existiam uma República Popular da Ucrânia Ocidental e uma República Popular da Ucrânia. Os intelectuais da Ucrânia Ocidental tinham uma concepção da identidade ucraniana totalmente diferente daquela dos sulistas e orientais da Ucrânia. E essa disputa nunca foi realmente resolvida, nem mesmo na época em que a maior parte da atual Ucrânia se tornou, em dezembro de 1922 uma república soviética.

Se olharmos agora para a época da Segunda Guerra Mundial, vemos que uma parte da Ucrânia lutou ao lado de Hitler e outra grande parte ao lado do Exército Vermelho. Isso significou que, após o fim da guerra, vencedores e vencidos não se viram em países diferentes, separados por fronteiras, mas sim dentro de um único país. Imagine essas provações que dividiram o povo.

Em resumo, a falta de continuidade estatal da Ucrânia torna muito difícil encontrar uma solução pacífica para a convivência nesse contexto extremamente complexo. E a disputa geopolítica em torno da Ucrânia — de um lado os EUA e a UE, do outro a Rússia — também não facilita as coisas. Ouso afirmar que, se houvesse uma identidade comum entre os ucranianos, nem o Ocidente, ou seja, a UE, nem o Oriente, ou seja, a Rússia, teriam tido chance de puxar o país para um dos lados.

Desinformando a opinião

A Ucrânia poderia ter continuado a fortalecer seu papel de ponte entre o Oriente e o Ocidente, do qual, no fim das contas, sempre se beneficiou. A propósito, há um livro muito esclarecedor sobre o assunto, escrito por um politólogo norte-americano chamado Nikolai Petro, intitulado *The Tragedy of Ukraine*.

E mais uma coisa: se a Ucrânia tivesse dado mais importância à federalização do país — afinal, era para isso que se resumiam as reivindicações do leste da Ucrânia. Provavelmente muitas dessas questões explosivas nem teriam surgido. 

É totalmente claro que os jornalistas são obrigados a simplificar as coisas, a resumir, a tornar o assunto compreensível para todos apesar da complexidade, e que, de vez em quando, algo fica de fora — isso é compreensível. Mas o esforço deveria, pelo menos, ser perceptível: procurar fazer justiça, na medida do possível, a todos os lados na percepção do público.

O descontentamento dos usuários da mídia atingiu, por volta de 2014, um ápice até então inédito. Na época, a revista “Zap”, da NDR, abordou essa enxurrada de reclamações. E, se tiver interesse, você também pode pesquisar no Google. Assim, você encontrará o que eu disse sobre o assunto em abril de 2014. Naquela ocasião, eles me entrevistaram sobre o tema.

Esse descontentamento tem se mantido, com maior ou menor intensidade, desde então e leva a uma perigosa perda de credibilidade, tanto da política quanto da mídia. E essas não são boas condições para sistemas democráticos. Gostaria de citar, propositalmente, um exemplo da situação em que nos encontramos, de um período anterior ao ataque russo, mais precisamente do programa da ARD “Bericht aus Berlin” — embora eu nem saiba se os jovens ainda assistem a esse tipo de coisa —, mas existe na ARD um programa chamado “Bericht aus Berlin”, do qual vou citar agora um trecho, mais precisamente de 6 de setembro de 2020.

O tema na época era o envenenamento do ativista russo Alexei Navalny e a questão de saber se isso teria repercussões na construção do gasoduto Nord Stream 2. Tudo isso já é história. Navalny morreu e o gasoduto está danificado. Mas o então ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Mars, estava no estúdio como convidado e lhe fizeram essa pergunta: O envenenamento de Nawalni não tem nenhum impacto? Não tem impacto na construção do Nord Stream 2?

Mars respondeu mais ou menos assim: não devemos misturar as coisas e, acima de tudo, é preciso esperar para ver quais seriam os resultados das investigações no que diz respeito à questão da responsabilidade.

Mas a colega no estúdio não ficou satisfeita com a resposta e insistiu na questão — o que, afinal, é o seu trabalho. No total, ela insistiu três vezes, perguntando: mas se vier a se constatar que Putin e o governo russo estão por trás disso, o que acontecerá? E o Sr. Mars finalmente respondeu, visivelmente irritado, cito textualmente: “Seria certamente errado descartar de antemão que isso não possa ter repercussões no projeto.” Foi exatamente isso que ele disse.

A primeira notícia no noticiário que saiu logo em seguida, dizia: “Até mesmo o ministro das Relações Exteriores, Heiko Mars, questiona o Nord Stream 2”.

Não, ele não disse isso. Mas foi exatamente assim que as coisas continuaram. O colega em Berlim formulou diretamente: “Heiko Mars ameaçou interromper o Nord Stream 2”. Ele não disse nada disso.

Esse é um exemplo flagrante de como, aparentemente, se colocam nas bocas dos tomadores de decisão as manchetes desejadas, encurralando-os com perguntas específicas. Também é muito comum perguntar, de forma bem breve: “sim ou não?”. Isso não tem mais nada a ver com reportagem crítica. Isso é propaganda e é um prazer em aumentar a tensão para tornar tudo um pouco mais emocionante. E, na verdade, agora também temo que seja para não se expor à acusação dos colegas de não ter sido crítico o suficiente em relação a esse regime russo abominável.

Entendedores da Rússia

O rótulo de “quem entende a Rússia” ou, pior ainda, de “quem entende Putin” é praticamente fatal para a carreira. Aliás, naquela noite, com exceção do Sr. Rött, da CDU, e do então embaixador ucraniano Melnik, não foram principalmente os políticos que questionaram o Nord Stream 2, mas sim os jornalistas. Vamos agora analisar a linguagem, a escolha de palavras e a aplicação de dois pesos e duas medidas.

O quão profundamente enraizada está essa mentalidade fatal de “amigo ou inimigo” em relação à Rússia e aos EUA fica evidente no seguinte: se você digitar os dois termos “antiamericanismo” e “antirussismo” no seu computador, o primeiro termo, “antiamericanismo”, aparece como correto. Já o segundo, “antirussismo”, segundo o corretor ortográfico, nem sequer existe. A autocorreção sugere “antirracismo” como substituto correto.

Objetivamente falando, é claro que ambos existem: o antiamericanismo e o antirussismo. Isso também se aplica a este caso. Certa vez, redigi a ata de um debate e, nesse contexto, escrevi a seguinte frase: “Há muito mais “inclinação para o Ocidente” por parte das elites russas do que “inclinação para o Leste” por parte da elite ocidental.”

Aí acontece a mesma coisa. A “inclinação para o Ocidente” não é problema algum. Não é contestado de forma alguma pelo corretor ortográfico, embora, no fundo, seja um termo terrível. “Inclinação para o Ocidente”, mas ele existe. “Inclinação para o Leste” não é aceito, mas sim marcado como errado. Sim, estamos mesmo ficando meio malucos.

Então, vamos continuar falando um pouco mais sobre a língua e ampliar o leque temático. No final de novembro, o programa “Morgenmagazin” da ARD tratou dos mandados de prisão do Tribunal Penal Internacional contra Putin e Netanyahu. No caso de Putin, a acusação era de crimes de guerra. No caso de Netanyahu, dizia-se “hum, acusado de supostos crimes de guerra”. Por falar em “suposto”: quando se trata de notícias não confirmadas e o assunto diz respeito aos “bons”, então diz-se isso, aquilo e aquilo outro, e aparentemente é assim e assado. Já no caso dos “maus”, o termo “aparentemente” costuma se transformar na palavra “supostamente”. Aí, a dúvida já está claramente implícita.

Dois pesos e duas medidas

Ou por que não prestar atenção em qual contexto se usa “energia nuclear” e em qual se usa “energia atômica”, ou o que, afinal, diferencia as quadrilhas de contrabandistas de quem ajuda na fuga? E quanto aos terroristas, de um lado, e aos combatentes pela liberdade, do outro?

Ou o que você acha disso? O noticiário “Tagesschau” de 16 de dezembro afirmou que “Israel pretende intensificar a colonização das Colinas do Golã.” O número, sim, vai além. O número de 50 mil colonos deve ser duplicado. A Arábia Saudita critica isso como sendo contrário ao direito internacional. Israel ocupa as Colinas do Golã sírias desde 1967. Você percebeu alguma coisa?

Por que a Arábia Saudita é citada no contexto da crítica ao comportamento israelense como contrário ao direito internacional, de modo que, desde o início, isso não seja levado tão a sério? Seguindo o lema de que os sauditas deveriam ficar de fora quando se trata de direito internacional. O comportamento de Israel é contrário ao direito internacional.

O seguinte também é interessante. Palavra-chave: dois pesos, duas medidas. Daria para fazer uma série sobre isso. A política do FDP, Agnes Strack Zimmermann, no programa “Sie werden sich wundern”. A Sra. Strack Zimmermann disse durante a entrevista sobre o fato de que a UE — não sei exatamente quem, mas — aconselhou o então Secretário para as Relações Externas, Josep Borrell, a suspender os fóruns de diálogo com Israel. Sobre isso, a Sra. Strack Zimmermann afirmou que interromper as conversas é absurdo. As conversas são importantes e interessantes, mas como fica a questão da Rússia? O colega poderia ter perguntado isso, talvez.

No final de outubro do ano passado, os países do BRIC, ou melhor, do BRICS Plus, se reuniram em Kazan, na Rússia. Lá se vai o isolamento da Rússia. É preciso ter uma mentalidade bem eurocêntrica e ser um tanto arrogante para afirmar que a Rússia está isolada. Então, sobre os países do BRIC, certo? Brasil, Índia, China, Rússia, África do Sul — no ano passado, o grupo foi ampliado para incluir Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos, e, desde 6 de janeiro, a Indonésia também faz parte. Então, em Kazan, cerca de 50 países se reuniram. Os candidatos também estão fazendo fila. A Turquia também se candidatou. Afinal, é membro da OTAN.

Além da avaliação quase que ofensiva na cobertura da mídia, que chegou a falar em “grupo de autoajuda”. Eles nos ultrapassaram economicamente. Isso já caiu na cabeça de todo mundo? Ou seja, um grupo de autoajuda, mas nos canais públicos se falava quase que exclusivamente dos chamados “Estados Brics”.

Pensamento unidimensional

Seguindo essa lógica, deveria-se dizer, na verdade, a chamada UE e a chamada OTAN. Portanto, além dessa falta de respeito, essa entrevista também mostrou que o pensamento jornalístico está se tornando cada vez mais unidimensional. Quando a primeira pergunta da apresentadora ao colega no local foi: “Essa cúpula foi um sucesso para Putin?”, quão irrelevante é isso, afinal? A primeira pergunta deveria ter sido: “O que resultou disso tudo? Em que pontos eles chegaram a um acordo? Em que pontos não chegaram a um acordo? Quais são as divergências? Qual é a estratégia deles?”

Ou ainda perguntas sobre todo o contexto, sobre a atmosfera em Kazan. Como foi que tudo aconteceu por lá? Na coletiva de imprensa final, por exemplo, não havia perguntas de jornalistas programadas, e Putin, mesmo assim, permitiu que fossem feitas. Para que servem canais como o Phoenix? Você conhece o Phoenix? Sim, isso seria, sim, a gente já não sabe mais muito bem dessas coisas hoje em dia, mas essa seria uma função clássica. Assim, cada um pode formar sua própria opinião sobre o que achar disso.

As discussões na política e na mídia têm algo de limitado. No que diz respeito à guerra na Ucrânia, elas giram principalmente em torno da eficiência e do poder de fogo dos sistemas de armas, e o pensamento se restringe às categorias de vitória e derrota. E fala-se de uma política externa orientada por valores, que aparentemente não tem problema algum em classificar as vítimas civis de uma guerra como crimes de guerra ou danos colaterais, dependendo de quem os causou. Se eu tivesse que dizer, de forma breve e concisa, o que, na minha opinião, os jornalistas devem fazer sem falta, eu usaria os termos “visão panorâmica” e “mudança de perspectiva”.

A capa de um dos seus livros: Entender a Rússia, A
luta pela Ucrânia e a arrogância do Ocidente (2015)

Verdade e narrativa

Isso significa, no caso do noticiário internacional, mergulhar tão profundamente em outros mundos que a própria percepção ocidental passa a ser apenas uma entre muitas.

Se levamos a sério a democracia, a igualdade de direitos e tudo mais, isso faz parte do processo. Isso também não tem nada a ver com julgamento. Trata-se apenas de perceber, de tomar conhecimento.

E isso leva, de fato, a esse nobre conceito de verdade, sobre o qual, especialmente no jornalismo, é preciso aceitar que, na maioria dos casos, existe mais de uma verdade. Na minha opinião, essa constatação é o melhor método para se aproximar da verdade, seja lá o que ela for. Pelo menos há já algum tempo, fala-se nisso como “narrativa”.

Um problema associado às narrativas é que, dependendo do país, existem narrativas boas e ruins, ou melhor, corretas e incorretas. E a narrativa própria é, naturalmente, a boa e a correta.

E quase ninguém percebe que, só pelo fato de usar o termo “narrativa”, basicamente se distancia do que a narrativa afirma. Pois se existisse algo como a verdade, não se chamaria de narrativa, ou seja, de relato. Narrativa não significa nada além de contar. Departamentos inteiros de relações públicas também elaboram narrativas, especialmente na gestão de crises, pois, por meio delas, é possível transmitir mensagens tanto racionais quanto emocionais que garantem que certas coisas sejam percebidas exatamente de determinada maneira.

E uma narrativa importante atualmente consiste em substituir a imagem da União Soviética como inimiga da Guerra Fria pela imagem da Rússia como inimiga. Encenar uma ameaça que não existe. Não analisar os interesses russos — afinal, o que eles realmente buscam? —, mas sim construir um novo confronto que, no fundo, parecia ter sido superado no final da década de 80 do século passado.

Não seria a primeira vez na história — como já sugeri — que imagens de amigos e inimigos e a demonização do adversário servem para preparar toda uma sociedade para a guerra. O problema com as narrativas é que, quando uma narrativa se impõe na opinião pública — independentemente do tema em questão e mesmo que a opinião pública tenha uma visão contrária —, quando uma narrativa se impõe na opinião pública, não há mais troca de argumentos, mas sim a reivindicação da autoridade interpretativa.

E qualquer um que se afaste dessa narrativa passa a ser visto com desconfiança.

Cultura da delação

Quanto ao conceito de narrativa, é preciso saber que há sempre uma intenção de causar um determinado efeito. O que chamamos de narrativa aqui, em outros países costumamos designar como propaganda.

Por falar nisso, no último domingo tivemos mais um exemplo típico no “Heute Journal” (O programa de notícias da segunda rede pública de televisão da Alemanha). Em uma reportagem sobre a situação na frente ucraniano-russa, dizia-se em determinado trecho isso, aquilo e aquilo, segundo fontes ucranianas. Tudo bem. Um pouco mais adiante, afirmava-se então que, como supostamente mostram materiais de propaganda da Rússia, a situação seria assim, assim e assim. Cada vez menos usuários da mídia estão dispostos a aceitar isso como um bom trabalho jornalístico.

Agora, gostaria muito de mencionar a Lei dos Serviços Digitais. Ela entrou em vigor na UE no início do ano passado com o objetivo de se proteger contra a desinformação e a propaganda vindas do exterior e, segundo se afirma, estabelecer regras rigorosas para a preservação dos valores europeus. O problema é que o conceito de desinformação não é definido de forma confiável em nenhum ponto.

No entanto, já em 2018, durante a elaboração dessa lei, a Comissão Europeia deixou claro que a desinformação inclui, entre outras coisas, aquilo que, cito, “pode causar danos públicos”. E, em seguida, são enumerados itens como ameaças aos processos políticos democráticos e à tomada de decisões políticas.

Isso significa, consequentemente, que opiniões politicamente indesejáveis podem ser facilmente e legalmente neutralizadas com base nisso. Com base nessa lei, estão sendo criadas na Alemanha cada vez mais instâncias às quais os cidadãos podem recorrer caso percebam algo suspeito, mesmo que não atinja o limiar da punibilidade.

Já devem existir mais de 50 pontos de denúncia na Alemanha. Só posso alertar contra o risco de se estabelecer, justamente na Alemanha, uma cultura de delação que destrua completamente a já fragilizada cultura do debate.

Voltando à guerra na Ucrânia e à missão do jornalismo de qualidade. O jornalismo de qualidade pressupõe que tenhamos repórteres tanto de um lado quanto do outro das linhas de confronto — ou seja, também no lado controlado pela Rússia —, ou basta reportar a partir das áreas que estão sob o controle de Kiev?

O jornalismo de qualidade cumpre seu papel quando, em guerras, concentra-se em histórias com um toque humano, que, obviamente, têm sua razão de ser, mas que contribuem pouco para a análise de um conflito? É jornalismo de qualidade quando, apenas pela forma como os atores são entrevistados, se promove a escalada ou se cria pressão moral sob o lema de que “não se pode deixar o agressor se safar assim”? E isso nos leva à questão da perspectiva. Como vamos sair dessa situação?

Trágica narrativa

O que considero trágico é que, pelo que se sabe, essa guerra poderia ter terminado cerca de quatro semanas após o início. Para todos aqueles que já não se lembram bem disso, quatro semanas após o início da guerra, em Istambul, por intermédio do então primeiro-ministro israelense Bennet, ocorreram negociações entre a Ucrânia e a Rússia que foram bem-sucedidas; elas ainda não haviam esclarecido tudo, mas a direção estava clara e, acima de tudo, havia a vontade política de resolver os pontos de discórdia por via diplomática.

Mesmo com a complexa questão do GRIN, o processo não fracassou por causa da Rússia, mas porque, naquele momento, o fim da guerra não era do interesse da comunidade internacional ocidental. Sim, um ótimo discurso e, se a gente der uma olhada nos números atuais sobre isso, a situação é realmente extremamente dramática. Pensem nisso. Quase 500.000 soldados russos teriam sido mortos desde o início da guerra, com a invasão russa na Ucrânia em fevereiro de 2022. Putin está recuando no campo de batalha. Sim, é claro que isso foi dito aqui mais uma vez por algum ex-soldado, alguém que supostamente tem informações dos serviços secretos. 

Hum, sim, no fim das contas, é um campo de batalha para ambos os lados e, por isso, devemos fazer tudo o que for possível, para que isso termine de uma vez por todas. Sim, se agora 500 mil russos realmente tiverem morrido — sejam 200, 300, 400 ou 500 mil —, então temos que multiplicar esse número por dois e ainda somar todos os feridos. Onde estamos agora: 3 milhões, 4 milhões, 5 milhões de mortos e feridos? Sim, há muito mais do que isso, não é? Afinal, nem todo mundo acaba morrendo. Enfim, é simplesmente trágico, catastrófico.

E o pior é que nossos políticos não estão fazendo absolutamente nada a respeito. Pelo contrário, vemos mais remessas de armas, mais apoio à Ucrânia, inclusive financeiro, é claro, porque o dinheiro, obviamente, está sendo tão bem empregado na Ucrânia. O interessante é que a Ucrânia, por exemplo, já está exportando seus drones para o exterior, porque tem tantas armas. É preciso refletir sobre isso. 

Orçamento diabólico

E, mesmo assim, ainda temos Kiesewetter e Kuh (Parlamentares da coalisão de governo), que gostariam que, de preferência, também fosse fornecida a Taurus (Sistema de mísseis de longa distância alemão). Quanto antes melhor, para que possam continuar atirando contra a Rússia. E vemos isso também por meio desses números. Pensem nisso.

A UE como um todo gastou 190 bilhões de Euros aqui, dos quais 187 bilhões, em apoio financeiro. E aí ainda temos a nossa parte. Nós alemães, gastamos 47 bilhões com a Ucrânia, dos quais 42 bilhões em apoio militar, além de todo o dinheiro que injetamos na UE — o que, naturalmente, também inclui a Ucrânia. Isso me deixaria curioso, porque se aqui são 47 bilhões, em 26 de abril, vamos arredondar para cerca de 50 bilhões. Na verdade, destinamos uma parcela predominante também para a UE. 

O que vocês acham? Será que já chegamos a 80 bilhões, talvez até 100 bilhões? Pensem bem nisso tudo e, então, não temos dinheiro para a infraestrutura aqui. Sim, não temos dinheiro, por exemplo, para os estudantes, que querem um aumento da sua bolsa de estudos. Trata-se de uma quantia de alguns milhões. Não há mais dinheiro. Mas para armas, temos dinheiro todos os dias. Dos 47 bilhões de euros, 42 bilhões de euros só em armas e, depois, aqui, 190 bilhões da UE só em apoio financeiro — 190 bilhões de euros — e esse dinheiro também precisa ser ganho. É claro que isso nunca vai acontecer. Essas dívidas nunca serão pagas. 

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